segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Bombeiros chegam a fazer 70 salvamentos seguidos em fins de semana de calor no Rio

Invista informa




 Amara Velloso é a única mulher nos postos da orla da Zona Sul - Leo Martins / Agência O Globo
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RIO - Domingo de sol no Posto 8, em Ipanema. A turba de gente que vem aproveitar o verão nesse ponto da praia não sabe, mas está no raio de observação dos guarda-vidas Marcelo Cabral e Robson Neto. Dois pontos vermelhos num formigueiro de gente, cabe a eles a missão hercúlea de orientar incessantemente os banhistas sobre as correntezas e socorrer, custe o que custar, qualquer um que esteja em apuros na água. Com o mar aparentemente calmo, porém, ardiloso, Marcelo e Robson vasculham atentamente de cima do posto de salvamento os pontos de risco que, como fazem todos os dias, demarcaram na areia com bandeiras vermelhas. Têm o olho clínico ou, como preferem dizer, o feeling para identificar valas. De repente, avistam algo e disparam pelas brechas da areia feito corredores em competição, levando pés de pato nas mãos. Duas jovens estão presas numa vala. Elas já haviam sido advertidas por Marcelo, mas não levaram os alertas a sério. O resgate é certeiro. Salvas, as mulheres saem da água, ajeitando os biquínis, envergonhadas, embora quase ninguém na multidão em volta tenha se dado conta do que ocorreu.
— Saí de Vitória pra me afogar aqui — comenta Taís Vasques.
— Pelo menos, se afogar em Ipanema é mais chique do que em Camburi — não perde a piada, a amiga Stephanie Pontes.
Marcelo pergunta o nome e a idade das duas. Bem-humorado, esclarece que não está passando cantada. As informações vão para as estatísticas do Corpo de Bombeiros. Só naquele domingo, ele já havia registrado uma pequena pilha de ocorrências.
— Goiás, Minas, Brasília, Rio, Espírito Santo, Minas de novo — o guarda-vidas vai mostrando as fichas. — Boa parte das vítimas é de fora da cidade, ou gente daqui que não tem o costume de vir à praia, nunca fez aula de natação.
Assim como as marés, a rotina é inconstante. Tem dias de calmaria e de turbilhão. Tem momentos contemplativos e outros de ação. O guarda-vida carioca é um militar (como todo integrante do Corpo de Bombeiros) cujo escritório é a praia. É um profissional que encara sol, chuva, vento, lida com crianças, farofeiros, idosos, turistas, pinguços e pinguins perdidos. Devem zelar pela segurança de todos, seguindo um velho lema: “Água no umbigo, sinal de perigo.’’
Em fins de semana de calor abrasivo e praia lotada, um guarda-vida pode chegar a fazer de 50 a 70 salvamentos seguidos. Muitas vezes, não conseguem nem almoçar a marmita que recebem, ou mesmo retocar o protetor solar. Visivelmente sobrecarregados no verão, os guarda-vidas cariocas são heróis discretos, trabalhando no limite físico e psicológico para evitar tragédias na cada vez mais abarrotada orla da cidade.
EX-JOGADOR DE POLO LEVOU JET-SKI
Marcelo, 32, ingressou nos Bombeiros em 2008, no último concurso público feito. Antes disso, vendeu tortas, foi corretor de seguros e fuzileiro naval. Já seu parceiro e “mestre’’ Robson está na corporação há 25 anos. Ele é um dos responsáveis por implantar os salvamentos com jet ski nas praias fluminenses. Aos 46 anos, o ex-jogador de polo aquático é um dos guarda-vidas mais experientes do 3º Grupamento Marítimo (GMar), que cobre do Leme a São Conrado. A rotina dos profissionais de salvamento das praias cariocas está sendo filmada há cerca de um ano por uma equipe do Discovery Channel e será exibida em formato de reality show.
— Estamos entre os guarda-vidas mais exigidos do mundo. É difícil pensar em outra cidade tão grande, com sol o ano todo, tantos turistas e mar com correntezas taiçoeiras. A chegada do metrô à orla ainda aumentou o número de afogamentos — explica o sargento Robson, que não gosta de passar férias em locais de praia. — Não consigo relaxar, sempre acabo fazendo algum resgate.

Bombeiros recebem orientação no GMar de Copacabana, antes de seguir para os postos de salvamento - Leo Martins / Agência O Globo
Nos fins de semana, alguns postos costumam comportar até uma dúzia de crianças perdidas esperando pelos pais, enquanto os guarda-vidas tentam entretê-las. Enquanto continuam varrendo a água com os olhos de águia. Enquanto têm que explicar para banhistas que não é da alçada dos Bombeiros coibir roda de altinha na areia ou a venda proibida de camarão ou os furtos e roubos.
No purgatório da beleza e do caos, Marcelo e Robson já viram um pouco de tudo. Histórias dramáticas, violentas, heroicas, mas também engraçadas. Em situações periclitantes, o ser humano se revela, coragem e sentimentos são postos à prova, e relações podem acabar.
— Quando o casal está se afogando junto, tem os caras que fazem de tudo pra salvar a mulher, os que deixam ela lá e nadam pra se salvar e até os que se apoiam na companheira para não afundar — descreve Marcelo. — Pior é quando o cara abandona a moça e ainda fica com ciúme do guarda-vidas que fez o resgate.
Os guarda-vidas têm de se apresentar no 3º GMar às 6h45m. Lá, batem continência e ficam sabendo em qual posto ficarão. Só vão embora quando o sol se põe e a praia esvazia. No verão, cada posto conta com dois guarda-vidas, enquanto outros dois ficam numa barraca na areia, considerada um posto intermediário.
O cabo João Alves costuma atuar no posto “2 e meio’’, em Copacabana, próximo à primeira estação de metrô do bairro. Um ponto bastante cheio, cortado por correntezas matreiras, numa “praia de tombo’’, como são chamadas as com declive de profundidade abrupto.
— É uma profissão muito exigente. Somos escravos da atividade física e não temos nem metade do reconhecimento que merecemos — desabafa João, que carrega o símbolo dos guarda-vidas tatuado no braço. — Por outro lado, não respiramos o ar-condicionado numa firma e estamos em contato diário com a força divina.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, o salário básico de um guarda-vida é de R$ 2.759. Não há adicional por periculosidade ou insalubridade. A corporação conta com cerca de 1.200 profissionais nas praias de todo o estado. Durante o verão, muitos deles trabalham mais, com plantões dia sim, dia não (no restante do ano são duas folgas para cada plantão), e recebem um acréscimo de R$ 1 mil ao rendimento mensal. A Operação Verão teve início em novembro de 2014 e irá até março. Apenas entre os dias 1 e 7 de janeiro deste ano, foram registrados 1.944 resgates.
Durante as manhãs do verão, as praias de Ipanema e Copacabana recebem uma pequena legião de crianças e adolescentes que passam bradando cantos dos Bombeiros e fazendo exercícios, capitaneados por um guarda-vida que puxa a “tropa’’. São os alunos do projeto Botinho, tradicional curso de férias oferecido pelo Corpo de Bombeiros.
Amara Velloso é uma das instrutoras do projeto e a única mulher entre os guarda-vidas da orla da Zona Sul. Formada em Educação Física e ex-nadadora do Botafogo, ela conseguiu passar no temido curso de formação de aspirantes, definido por um dos oficiais como uma espécie de “Tropa de elite na praia’’. A provação dura de seis meses a um ano e combina exercícios duros, corridas extenuantes e natação de longa distância — até as ilhas Cagarras ou Tijucas. Em boa parte das provas não se pode beber água ou comer.
— Muitas vezes no curso me disseram pra desistir, pedir arrego, falavam que isso não é trabalho para mulher. Hoje, me sinto aceita e protegida pelos colegas e fico contente quando as senhorinhas vêm me parabenizar — conta Amara, que namora um colega do grupamento.
Recuperando-se de uma cirurgia, ela atualmente trabalha nos postos apenas uma vez por semana. Em uma quinta-feira de neblina atípica na praia, ela passava a manhã no Posto 10, de Ipanema. O outro lado da rotina dos guarda-vidas é feito desses dias tranquilos, em que se joga conversa fora para matar o tédio, enquanto os olhos não deixam de vasculhar a areia e o mar involuntariamente. No interior do posto — que lembra o de um pequeno barco —, o cabo Igor Neves grelhava um filé de frango numa frigideira elétrica que costuma trazer de casa. O posto é administrado pela empresa Orla Rio, mas são os próprios guarda-vidas que instalam apetrechos como rádio, TV, micro-ondas.
BRINCADEIRA PARA ACALMAR VÍTIMA
Mais jovem guarda-vida na praia, com 24 anos, Yorran Matos terminou há pouco tempo a faculdade de Odontologia e pretende seguir as duas carreiras. Ele e Amara são uma dupla inseparável desde os dias intensos do curso de preparação.
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— Já temos afinidade, sabemos nos comunicar fora e dentro d’água. Gostamos de brincar com a vítima para que ela se acalme — conta Yiorran, que também é instrutor no Botinho.
Aos 30 anos, com unhas pintadas de azul e a tatuagem “Livrai-me de tudo que me trava o riso’’ nas costas, Amara garante nunca ter sido fã de Pamela Anderson — a estrela da série “S.O.S Malibu”, que glamorizou a profissão nos anos 90:
— A gente até tenta estufar o peito e fazer aquela pose quando sai da água depois do resgate, mas nunca dá certo. A onda vem, derruba a gente, o cabelo fica cheio de areia... O que você viu na TV é tudo mentira, tá?
Dentro de dois anos, os guarda-vidas cariocas se tornarão centenários. O serviço de salvamentos no Rio foi oficializado no dia 1º de junho de 1917, quando o então prefeito Amaro Cavalcanti inaugurou os seis primeiros postos de Copacabana — hoje, existem 27 em toda a orla. Poucos meses antes, o afogamento do jovem Mauricio França, filho de um famoso industrial da cidade, em Copacabana, recebera grande destaque na imprensa carioca.
— Nas primeiras décadas do século XX, o poder público e a iniciativa privada percebem o potencial turístico da Praia de Copacabana. Como os afogamentos eram uma ameaça temida, o serviço de salvamento tornou-se uma prioridade no projeto de fazer da praia um cartão-postal — explica o pesquisador Paulo Bonadio, autor de uma dissertação de mestrado sobre a história do banho de mar nas praias cariocas.
Bonadio lembra que a primeira geração de guarda-vidas de Copacabana foi muito bem recebida pelos moradores. Apesar de parcamente remunerados pela prefeitura — o serviço só passaria para a alçada dos Bombeiros em 1975 — eles desfrutavam de alto prestígio na praia. Personagens como o popular Isidro Pacheco Soares, Edu e China tornaram-se parte do folclore das areias do bairro. Muito antes dos bossa-novistas e surfistas, foram os protótipos do galã praiano carioca.
O Dia dos Salva-vidas é comemorado até hoje, embora sem a mesma pompa, todo 28 de dezembro. A data lembra o dia do ano de 1928 em que Isidro e um colega enfrentaram o mar bravio na tentativa de salvar os dois filhos do importante casal Jacy Monteiro. Apesar de resgatadas, as crianças não sobreviveram, tragédia que comoveu a então capital do país. Ao longo das décadas, o termo salva-vida acabou sendo substituído oficialmente por guarda-vida.
— Preferimos falar guarda-vida para deixar claro que nossa ênfase é orientar os banhistas e sinalizar os perigos. Fazemos de tudo para evitar que haja a necessidade do salvamento — explica o coronel Marcelo Pinheiro, que comanda o 3º GMar.
À frente do grupamento há três anos, Pinheiro zela pelos ritos militares no quartel, cultiva o tom conciliatório e gosta de fazer pequenos discursos motivacionais para a tropa. Ele costuma usar o termo “rústica’’ para descrever a rotina dos guarda-vidas. Atualmente, Pinheiro tenta agilizar a instalação de estruturas elevadas na beira do mar de algumas praias da cidade, espécies de andaimes para melhorar a observação.
O coronel admite que o desgaste da equipe nos verões vem sendo bastante intenso e, com uma parte dos homens passando dos 40 anos, considera o aumento do contingente uma medida fundamental para evitar tragédias maiores.
— Existe a necessidade latente de um novo concurso público, para que possamos garantir a segurança da população no verão de 2016 — afirma.

Robson Neto faz socorros usando jet ski - Leo Martins / Agência O Globo
Terça-feira de manhã, o mar está tranquilo, mas, pelo alto-falante do 3º GMar, equipes de lancha e jet ski são convocadas. Há um afogamento grave nos Posto 4, um homem encontrado em “grau seis’’, o mais severo na escala de danos seguida pelos bombeiros. O coronel aparenta preocupação. Segundo os primeiros relatos, trata-se de um rapaz de 26 anos que entrara no mar com uma boia. Provavelmente a perdeu e afundou.
— Há coisas que são quase impossíveis de ver. Situações muito atípicas, fatalidades mesmo, mas apuramos todos os incidentes graves. Sentimos muito cada morte aqui, até mais do que o restante da sociedade. Procuramos não culpar ninguém sem saber exatamente o que houve — diz o coronel, antes de partir para o local.
Vala é o nome popular das chamadas “correntes de retorno’’ formadas pelo refluxo das ondas em direção ao mar. São o maior risco para os banhistas, sobretudo próximo a pedras. No último dia 8 de janeiro, dois jovens morreram afogados na Praia de São Conrado, uma das mais perigosas da cidade. Embora o número de resgates na orla fluminense seja grande, os óbitos não são tão frequentes — em 2013, foram oito; em 2014, dez, de acordo com as estatísticas do Corpo de Bombeiros.
Há, porém, a possibilidade de tragédias maiores acontecerem em areias lotadas, caso o mar vire subitamente. De acordo com o oceanógrafo David Zee, a intervenção humana nas praias cariocas e as mudanças climáticas vêm elevando os riscos para os banhistas. Um dos pontos mais problemáticos é em Copacabana, onde um acréscimo de areia feito na década de 60 para “engordar’’ a praia acabou provocando efeitos inesperados, como um súbito aumento da profundidade na beira d’água e a instabilidade do relevo submarino, o que faz com que o banhista perca o pé rapidamente, e as valas fiquem mais poderosas e dinâmicas.
RESSACAS MAIORES E MAIS INTENSAS
Nas últimas duas décadas, o oceanógrafo vem medindo a quantidade e a intensidade das ressacas no mar carioca. Os dados impressionam. Se no início dos anos 90 ocorriam na frequência de uma por ano, hoje, já são sete:
— Não tenho dúvida que estamos testemunhando aqui um dos efeitos do aquecimento global. A cada ano que passa, a energia do mar tem aumentado, com ondas maiores, ressacas e transformações abruptas das praias. Tudo isso aumenta a força das correntezas e o risco.
Quando o resgate é complexo ou a vítima está muito grave, os guarda-vidas podem optar por nadar com ela para além da arrebentação e solicitar o auxílio de um helicóptero. Responsável por coordenar as atividades de salvamento aéreo, o comandante Paulo Roget conta com quatro aeronaves Águia especialmente equipadas para esse tipo de missão. Cada uma está avaliada, segundo ele, em cerca de US$ 4 milhões.
Roget comanda voos de salvamento desde 2003 e é um dos mais experientes entre os sete pilotos em atividade. O resgate aéreo demanda precisão total. O momento mais complicado é a hora de lançar o pulsar, nome técnico da rede que pesca e arrasta a vítima até a areia — técnica desenvolvida originalmente por aqui. Enquanto o socorro inicial é prestado, a aeronave fica pairando a poucos metros do chão. Dependendo do estado de saúde, a vítima é liberada ou levada para um hospital ou para o centro de recuperação de afogados que fica dentro do 3º GMar.
— Você tem que ficar com um olho no mar e outro no afogado. Se ele estiver na arrebentação e uma onda bater no helicóptero, já era, caímos todos. É preciso ter frieza e muita técnica — explica Roget.

Yorran Matos é o mais jovem guarda-vida das areias cariocas - Leo Martins / Agência O Globo
Ele já chegou a fazer 50 salvamentos num único dia. Além de cobrir as praias, o comandante tem outras missões, como combater incêndios florestais, ajudar em buscas por corpos no mar — “De longe, a mais desagradável’’ — e resgatar náufragos de embarcações afundadas.

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