Amara Velloso é a única mulher nos postos da orla
da Zona Sul - Leo Martins / Agência O Globo
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RIO -
Domingo de sol no Posto 8, em Ipanema. A turba de gente que vem aproveitar o
verão nesse ponto da praia não sabe, mas está no raio de observação dos
guarda-vidas Marcelo Cabral e Robson Neto. Dois pontos vermelhos num
formigueiro de gente, cabe a eles a missão hercúlea de orientar incessantemente
os banhistas sobre as correntezas e socorrer, custe o que custar, qualquer um
que esteja em apuros na água. Com o mar aparentemente calmo, porém, ardiloso,
Marcelo e Robson vasculham atentamente de cima do posto de salvamento os pontos
de risco que, como fazem todos os dias, demarcaram na areia com bandeiras vermelhas.
Têm o olho clínico ou, como preferem dizer, o feeling para identificar valas.
De repente, avistam algo e disparam pelas brechas da areia feito corredores em
competição, levando pés de pato nas mãos. Duas jovens estão presas numa vala.
Elas já haviam sido advertidas por Marcelo, mas não levaram os alertas a sério.
O resgate é certeiro. Salvas, as mulheres saem da água, ajeitando os biquínis,
envergonhadas, embora quase ninguém na multidão em volta tenha se dado conta do
que ocorreu.
— Saí de
Vitória pra me afogar aqui — comenta Taís Vasques.
— Pelo
menos, se afogar em Ipanema é mais chique do que em Camburi — não perde a
piada, a amiga Stephanie Pontes.
Marcelo
pergunta o nome e a idade das duas. Bem-humorado, esclarece que não está
passando cantada. As informações vão para as estatísticas do Corpo de
Bombeiros. Só naquele domingo, ele já havia registrado uma pequena pilha de
ocorrências.
— Goiás,
Minas, Brasília, Rio, Espírito Santo, Minas de novo — o guarda-vidas vai
mostrando as fichas. — Boa parte das vítimas é de fora da cidade, ou gente
daqui que não tem o costume de vir à praia, nunca fez aula de natação.
Assim
como as marés, a rotina é inconstante. Tem dias de calmaria e de turbilhão. Tem
momentos contemplativos e outros de ação. O guarda-vida carioca é um militar
(como todo integrante do Corpo de Bombeiros) cujo escritório é a praia. É um
profissional que encara sol, chuva, vento, lida com crianças, farofeiros,
idosos, turistas, pinguços e pinguins perdidos. Devem zelar pela segurança de
todos, seguindo um velho lema: “Água no umbigo, sinal de perigo.’’
Em fins
de semana de calor abrasivo e praia lotada, um guarda-vida pode chegar a fazer
de 50 a 70 salvamentos seguidos. Muitas vezes, não conseguem nem almoçar a
marmita que recebem, ou mesmo retocar o protetor solar. Visivelmente
sobrecarregados no verão, os guarda-vidas cariocas são heróis discretos,
trabalhando no limite físico e psicológico para evitar tragédias na cada vez
mais abarrotada orla da cidade.
EX-JOGADOR
DE POLO LEVOU JET-SKI
Marcelo,
32, ingressou nos Bombeiros em 2008, no último concurso público feito. Antes
disso, vendeu tortas, foi corretor de seguros e fuzileiro naval. Já seu
parceiro e “mestre’’ Robson está na corporação há 25 anos. Ele é um dos
responsáveis por implantar os salvamentos com jet ski nas praias fluminenses.
Aos 46 anos, o ex-jogador de polo aquático é um dos guarda-vidas mais
experientes do 3º Grupamento Marítimo (GMar), que cobre do Leme a São Conrado.
A rotina dos profissionais de salvamento das praias cariocas está sendo filmada
há cerca de um ano por uma equipe do Discovery Channel e será exibida em
formato de reality show.
— Estamos
entre os guarda-vidas mais exigidos do mundo. É difícil pensar em outra cidade
tão grande, com sol o ano todo, tantos turistas e mar com correntezas
taiçoeiras. A chegada do metrô à orla ainda aumentou o número de afogamentos —
explica o sargento Robson, que não gosta de passar férias em locais de praia. —
Não consigo relaxar, sempre acabo fazendo algum resgate.
Bombeiros recebem orientação no GMar de Copacabana,
antes de seguir para os postos de salvamento - Leo Martins / Agência O Globo
Nos fins
de semana, alguns postos costumam comportar até uma dúzia de crianças perdidas
esperando pelos pais, enquanto os guarda-vidas tentam entretê-las. Enquanto
continuam varrendo a água com os olhos de águia. Enquanto têm que explicar para
banhistas que não é da alçada dos Bombeiros coibir roda de altinha na areia ou
a venda proibida de camarão ou os furtos e roubos.
No
purgatório da beleza e do caos, Marcelo e Robson já viram um pouco de tudo.
Histórias dramáticas, violentas, heroicas, mas também engraçadas. Em situações
periclitantes, o ser humano se revela, coragem e sentimentos são postos à
prova, e relações podem acabar.
— Quando
o casal está se afogando junto, tem os caras que fazem de tudo pra salvar a
mulher, os que deixam ela lá e nadam pra se salvar e até os que se apoiam na
companheira para não afundar — descreve Marcelo. — Pior é quando o cara
abandona a moça e ainda fica com ciúme do guarda-vidas que fez o resgate.
Os
guarda-vidas têm de se apresentar no 3º GMar às 6h45m. Lá, batem continência e
ficam sabendo em qual posto ficarão. Só vão embora quando o sol se põe e a
praia esvazia. No verão, cada posto conta com dois guarda-vidas, enquanto
outros dois ficam numa barraca na areia, considerada um posto intermediário.
O cabo
João Alves costuma atuar no posto “2 e meio’’, em Copacabana, próximo à
primeira estação de metrô do bairro. Um ponto bastante cheio, cortado por
correntezas matreiras, numa “praia de tombo’’, como são chamadas as com declive
de profundidade abrupto.
— É uma
profissão muito exigente. Somos escravos da atividade física e não temos nem
metade do reconhecimento que merecemos — desabafa João, que carrega o símbolo
dos guarda-vidas tatuado no braço. — Por outro lado, não respiramos o
ar-condicionado numa firma e estamos em contato diário com a força divina.
De acordo
com o Corpo de Bombeiros, o salário básico de um guarda-vida é de R$ 2.759. Não
há adicional por periculosidade ou insalubridade. A corporação conta com cerca
de 1.200 profissionais nas praias de todo o estado. Durante o verão, muitos
deles trabalham mais, com plantões dia sim, dia não (no restante do ano são
duas folgas para cada plantão), e recebem um acréscimo de R$ 1 mil ao
rendimento mensal. A Operação Verão teve início em novembro de 2014 e irá até
março. Apenas entre os dias 1 e 7 de janeiro deste ano, foram registrados 1.944
resgates.
Durante
as manhãs do verão, as praias de Ipanema e Copacabana recebem uma pequena
legião de crianças e adolescentes que passam bradando cantos dos Bombeiros e
fazendo exercícios, capitaneados por um guarda-vida que puxa a “tropa’’. São os
alunos do projeto Botinho, tradicional curso de férias oferecido pelo Corpo de
Bombeiros.
Amara
Velloso é uma das instrutoras do projeto e a única mulher entre os guarda-vidas
da orla da Zona Sul. Formada em Educação Física e ex-nadadora do Botafogo, ela
conseguiu passar no temido curso de formação de aspirantes, definido por um dos
oficiais como uma espécie de “Tropa de elite na praia’’. A provação dura de
seis meses a um ano e combina exercícios duros, corridas extenuantes e natação
de longa distância — até as ilhas Cagarras ou Tijucas. Em boa parte das provas
não se pode beber água ou comer.
— Muitas
vezes no curso me disseram pra desistir, pedir arrego, falavam que isso não é
trabalho para mulher. Hoje, me sinto aceita e protegida pelos colegas e fico
contente quando as senhorinhas vêm me parabenizar — conta Amara, que namora um
colega do grupamento.
Recuperando-se
de uma cirurgia, ela atualmente trabalha nos postos apenas uma vez por semana.
Em uma quinta-feira de neblina atípica na praia, ela passava a manhã no Posto
10, de Ipanema. O outro lado da rotina dos guarda-vidas é feito desses dias
tranquilos, em que se joga conversa fora para matar o tédio, enquanto os olhos
não deixam de vasculhar a areia e o mar involuntariamente. No interior do posto
— que lembra o de um pequeno barco —, o cabo Igor Neves grelhava um filé de
frango numa frigideira elétrica que costuma trazer de casa. O posto é
administrado pela empresa Orla Rio, mas são os próprios guarda-vidas que
instalam apetrechos como rádio, TV, micro-ondas.
BRINCADEIRA
PARA ACALMAR VÍTIMA
Mais
jovem guarda-vida na praia, com 24 anos, Yorran Matos terminou há pouco tempo a
faculdade de Odontologia e pretende seguir as duas carreiras. Ele e Amara são
uma dupla inseparável desde os dias intensos do curso de preparação.
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— Já
temos afinidade, sabemos nos comunicar fora e dentro d’água. Gostamos de
brincar com a vítima para que ela se acalme — conta Yiorran, que também é
instrutor no Botinho.
Aos 30
anos, com unhas pintadas de azul e a tatuagem “Livrai-me de tudo que me trava o
riso’’ nas costas, Amara garante nunca ter sido fã de Pamela Anderson — a
estrela da série “S.O.S Malibu”, que glamorizou a profissão nos anos 90:
— A gente
até tenta estufar o peito e fazer aquela pose quando sai da água depois do
resgate, mas nunca dá certo. A onda vem, derruba a gente, o cabelo fica cheio
de areia... O que você viu na TV é tudo mentira, tá?
Dentro de
dois anos, os guarda-vidas cariocas se tornarão centenários. O serviço de
salvamentos no Rio foi oficializado no dia 1º de junho de 1917, quando o então
prefeito Amaro Cavalcanti inaugurou os seis primeiros postos de Copacabana —
hoje, existem 27 em toda a orla. Poucos meses antes, o afogamento do jovem
Mauricio França, filho de um famoso industrial da cidade, em Copacabana,
recebera grande destaque na imprensa carioca.
— Nas
primeiras décadas do século XX, o poder público e a iniciativa privada percebem
o potencial turístico da Praia de Copacabana. Como os afogamentos eram uma
ameaça temida, o serviço de salvamento tornou-se uma prioridade no projeto de
fazer da praia um cartão-postal — explica o pesquisador Paulo Bonadio, autor de
uma dissertação de mestrado sobre a história do banho de mar nas praias
cariocas.
Bonadio
lembra que a primeira geração de guarda-vidas de Copacabana foi muito bem
recebida pelos moradores. Apesar de parcamente remunerados pela prefeitura — o
serviço só passaria para a alçada dos Bombeiros em 1975 — eles desfrutavam de
alto prestígio na praia. Personagens como o popular Isidro Pacheco Soares, Edu
e China tornaram-se parte do folclore das areias do bairro. Muito antes dos bossa-novistas
e surfistas, foram os protótipos do galã praiano carioca.
O Dia dos
Salva-vidas é comemorado até hoje, embora sem a mesma pompa, todo 28 de
dezembro. A data lembra o dia do ano de 1928 em que Isidro e um colega
enfrentaram o mar bravio na tentativa de salvar os dois filhos do importante
casal Jacy Monteiro. Apesar de resgatadas, as crianças não sobreviveram,
tragédia que comoveu a então capital do país. Ao longo das décadas, o termo
salva-vida acabou sendo substituído oficialmente por guarda-vida.
—
Preferimos falar guarda-vida para deixar claro que nossa ênfase é orientar os
banhistas e sinalizar os perigos. Fazemos de tudo para evitar que haja a
necessidade do salvamento — explica o coronel Marcelo Pinheiro, que comanda o
3º GMar.
À frente
do grupamento há três anos, Pinheiro zela pelos ritos militares no quartel,
cultiva o tom conciliatório e gosta de fazer pequenos discursos motivacionais
para a tropa. Ele costuma usar o termo “rústica’’ para descrever a rotina dos
guarda-vidas. Atualmente, Pinheiro tenta agilizar a instalação de estruturas
elevadas na beira do mar de algumas praias da cidade, espécies de andaimes para
melhorar a observação.
O coronel
admite que o desgaste da equipe nos verões vem sendo bastante intenso e, com
uma parte dos homens passando dos 40 anos, considera o aumento do contingente
uma medida fundamental para evitar tragédias maiores.
— Existe
a necessidade latente de um novo concurso público, para que possamos garantir a
segurança da população no verão de 2016 — afirma.
Robson Neto faz socorros usando jet ski - Leo
Martins / Agência O Globo
Terça-feira
de manhã, o mar está tranquilo, mas, pelo alto-falante do 3º GMar, equipes de
lancha e jet ski são convocadas. Há um afogamento grave nos Posto 4, um homem
encontrado em “grau seis’’, o mais severo na escala de danos seguida pelos
bombeiros. O coronel aparenta preocupação. Segundo os primeiros relatos,
trata-se de um rapaz de 26 anos que entrara no mar com uma boia. Provavelmente
a perdeu e afundou.
— Há
coisas que são quase impossíveis de ver. Situações muito atípicas, fatalidades
mesmo, mas apuramos todos os incidentes graves. Sentimos muito cada morte aqui,
até mais do que o restante da sociedade. Procuramos não culpar ninguém sem
saber exatamente o que houve — diz o coronel, antes de partir para o local.
Vala é o
nome popular das chamadas “correntes de retorno’’ formadas pelo refluxo das
ondas em direção ao mar. São o maior risco para os banhistas, sobretudo próximo
a pedras. No último dia 8 de janeiro, dois jovens morreram afogados na Praia de
São Conrado, uma das mais perigosas da cidade. Embora o número de resgates na
orla fluminense seja grande, os óbitos não são tão frequentes — em 2013, foram
oito; em 2014, dez, de acordo com as estatísticas do Corpo de Bombeiros.
Há,
porém, a possibilidade de tragédias maiores acontecerem em areias lotadas, caso
o mar vire subitamente. De acordo com o oceanógrafo David Zee, a intervenção
humana nas praias cariocas e as mudanças climáticas vêm elevando os riscos para
os banhistas. Um dos pontos mais problemáticos é em Copacabana, onde um
acréscimo de areia feito na década de 60 para “engordar’’ a praia acabou
provocando efeitos inesperados, como um súbito aumento da profundidade na beira
d’água e a instabilidade do relevo submarino, o que faz com que o banhista
perca o pé rapidamente, e as valas fiquem mais poderosas e dinâmicas.
RESSACAS
MAIORES E MAIS INTENSAS
Nas
últimas duas décadas, o oceanógrafo vem medindo a quantidade e a intensidade
das ressacas no mar carioca. Os dados impressionam. Se no início dos anos 90
ocorriam na frequência de uma por ano, hoje, já são sete:
— Não
tenho dúvida que estamos testemunhando aqui um dos efeitos do aquecimento
global. A cada ano que passa, a energia do mar tem aumentado, com ondas
maiores, ressacas e transformações abruptas das praias. Tudo isso aumenta a
força das correntezas e o risco.
Quando o
resgate é complexo ou a vítima está muito grave, os guarda-vidas podem optar
por nadar com ela para além da arrebentação e solicitar o auxílio de um
helicóptero. Responsável por coordenar as atividades de salvamento aéreo, o
comandante Paulo Roget conta com quatro aeronaves Águia especialmente equipadas
para esse tipo de missão. Cada uma está avaliada, segundo ele, em cerca de US$
4 milhões.
Roget
comanda voos de salvamento desde 2003 e é um dos mais experientes entre os sete
pilotos em atividade. O resgate aéreo demanda precisão total. O momento mais
complicado é a hora de lançar o pulsar, nome técnico da rede que pesca e
arrasta a vítima até a areia — técnica desenvolvida originalmente por aqui.
Enquanto o socorro inicial é prestado, a aeronave fica pairando a poucos metros
do chão. Dependendo do estado de saúde, a vítima é liberada ou levada para um
hospital ou para o centro de recuperação de afogados que fica dentro do 3º
GMar.
— Você
tem que ficar com um olho no mar e outro no afogado. Se ele estiver na
arrebentação e uma onda bater no helicóptero, já era, caímos todos. É preciso
ter frieza e muita técnica — explica Roget.
Yorran Matos é o mais jovem guarda-vida das areias
cariocas - Leo Martins / Agência O Globo
Ele já
chegou a fazer 50 salvamentos num único dia. Além de cobrir as praias, o
comandante tem outras missões, como combater incêndios florestais, ajudar em
buscas por corpos no mar — “De longe, a mais desagradável’’ — e resgatar
náufragos de embarcações afundadas.




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