Poliglota, Eduardo busca fôlego em Atibaia por um 2015 "bem melhor"
Autor de gols importantes, atacante jogou 90 minutos apenas duas vezes em 24 jogos e promete trabalho específico na pré-temporada para encarar o calor e o calendário.
A voz ainda sai mansa, quase que para dentro. A mistura de idiomas na cabeça inibe Eduardo da Silva. Se a volta ao Brasil já aconteceu há seis meses, dentro de casa o português ainda tem espaço pequeno perto do croata e do inglês com o qual se comunica com a esposa e os filhos. O objetivo para 2015, no entanto, está traçado, seja qual for a língua que diga isso: superar o desempenho que já rendeu picos de protagonismo no ano passado. Para isso, o atacante de 31 anos admite: precisa melhorar a parte física.
Eduardo aponta o primeiro semestre como importante ainda
para aprender o que é o Flamengo. Fora do Rio de Janeiro há 15 anos, o
atacante admitiu que ficou surpreso e disse ser necessário ter muito
equilíbrio mental para aguentar a pressão.
- Eu não
tinha essa noção quando jogava lá fora. Sabia que tinha pressão, a
torcida, mas só estando aqui dentro para ter ideia. No Flamengo, em um
jogo te colocam lá embaixo ou lá em cima. Tem que ter muita cabeça e
personalidade. A cobrança aumenta a cada dia.
Rodeado
de amigos, o poliglota rubro-negro atendeu ao Globo Esporte.com em sua
casa no Rio de Janeiro no último dia de suas férias. Enquanto brincava
com os filhos em croata e respondia perguntas em português, garantiu que
a grave lesão que sofreu quando defendia o Arsenal, em 2008, não tem
nenhuma relação com a dificuldade física que teve no ano passado, falou
sobre as impressões após o retorno ao Brasil e minimizou os altos e
baixos que teve com a camisa do Flamengo.
- Vivi bons momentos, mas esqueço rápido e penso nos próximos.
Confira a íntegra da entrevista:
Você
começa sua primeira temporada completa no Brasil, podendo trabalhar a
parte física e chegar de igual para igual com os companheiros. O ano
passado foi desgastante por emendar a temporada europeia com a chegada
ao Fla e ainda com Copa do Mundo. O que esperar do Eduardo em 2015?
-
Cheguei um pouco tarde no ano passado, mas vivi bons momentos. Foi uma
temporada difícil. A expectativa agora é começar bem, com saúde,
conquistar o título carioca e começar bem o Brasileiro.
No ano passado, você jogou 90 minutos raríssimas vocês. Trabalhar a parte física nesta pré-temporada é uma preocupação?
-
É verdade, foi algo que faltou. Quando assinei com o Flamengo, estava
de férias, há três semanas sem fazer atividades depois da Copa e meu
calendário ainda era o europeu. Depois da eliminação da Croácia, fiquei
no Brasil sem fazer nada. Logo dez dias depois que acertei com o
Flamengo, já comecei a jogar e praticamente não fiz uma pré-temporada.
Entrei no embalo e senti isso depois com o tempo que precisava trabalhar
mais a parte física. Vou fazer um trabalho específico para o clima, o
calor, as viagens... Vai ser bem melhor do que no ano passado.
Há quem diga que a dificuldade para jogar os 90
minutos ainda tem uma relação com sua lesão no tornozelo na época do
Arsenal. Isso ainda te atrapalha? Ficou algum tipo de sequela?
-
Não. Isso pode vir da parte de treinadores, preparadores... Claro que
provavelmente mudou alguma coisa, mas não tem nada a ver com preparo
físico. Pode ter mudado a confiança do treinador, da comissão, fica
aquela pergunta na cabeça, o ponto de interrogação. Mas estou tranquilo,
tenho jogado e faço gols como antes.
Então, é algo que ficou marcado muito mais pela imagem chocante do que ser algo que te incomode?
-
Não, não, não... No começo, quando voltei a jogar, sentia dores
musculares, mas foi só nos primeiros dois anos. Depois, meus músculos
estabilizaram e ficou tudo normal.
Para 2015,
o Flamengo contratou muitos jogadores rápidos para jogar no ataque.
Você atuou muito pouco centralizado na última temporada. Está pronto
para jogar assim agora ou tem preferência por jogar mais recuado?
-
Não tenho preferência. Só penso em jogar para ajudar a equipe em
qualquer posição, mas como 9, como centroavante, tenho jogado muito
pouco. Desde a época em que o Barcelona começou a jogar sem um atacante
fixo e ganhou tudo, muita gente começou a copiar na Europa. Antes da
minha lesão, os clubes jogavam muito no 4-4-2. Quando voltei, isso tinha
mudado e passei a atuar mais pelos lados ou atrás do centroavante. Mas
se precisar, é só me adaptar e não tem problema.
Seis
meses depois da volta ao Brasil, ao seu país, você diria que já está
completamente adaptado dentro e fora de campo? Tudo é muito diferente do
que você se acostumou na Croácia...
- Se
adaptar ao calor é fácil, o mais difícil é preparar a cabeça para isso,
para estar forte mentalmente. Em campo, a pessoa não pensa nisso. O mais
difícil são as viagens, que são longas. São muitos jogos seguidos, sem
parar, praticamente não treina. É preciso estar com a cabeça preparada.
Agora, já entrei no embalo.
Recentemente, craques como Kaká e Neymar fizeram
análises do futebol brasileiro e criticaram algumas situações. Como quem
cresceu na Europa, que tipo de futebol você encontrou aqui?
Decepcionou?
- O primeiro ponto é a
estrutura. Alguns clubes dizem que tem como na Europa, mas a maioria não
tem. Esse é o primeiro ponto. Sobre futebol, formação dos jogadores,
ainda estou por fora. Falam que o nível é baixo tecnicamente, mas não
vejo assim. O Brasileirão é diferente, mas também difícil de jogar. Hoje
em dia, em todo lugar, até em países pequenos, é difícil, não tem mais
time bobo. Antigamente, íamos jogar pré-temporada na Ásia e era sempre 5
a 0, 6 a 1. Ano passado, com o Shakhtar, era tudo mais equilibrado,
empate, vitória por 1 a 0. O clima, a temperatura, influenciam muito
aqui no Brasil.
No Brasil, o futebol é jogado em um ritmo mais lento?
- Diria que é mais aberto, tem mais espaço, mas também não é fácil. Com o calor, desgasta muito.
Você
é um carioca que viveu muito pouco aqui. Falando da vida fora de campo,
já deu tempo para redescobrir a cidade, aproveitar, conhecer lugares?
-
Me sinto em casa. Nos 15 anos de Europa, eu sempre vinha passar férias,
trazia o pessoal da Croácia, e acabava fazendo turismo com eles,
aproveitava para conhecer, ia no Cristo. Minha vida aqui é sempre o
mesmo trajeto: Barra, aeroporto, vou na minha comunidade... Simples
mesmo.
E o idioma já deixou de ser problema?
-
Eu embolo tudo, né? Em casa, falo croata com minha esposa, minha filha,
mistura português, fala um pouco de inglês... Fica tudo na cabeça, mas
faço de tudo para me readaptar o mais rápido.
Em campo, você ainda fala muito em croata?
-
Sim, sim, sim... Era acostumado a xingar em croata e acaba sendo
automático, vem a palavra quando perde um gol, erra uma passe...
Passado esse primeiro semestre, o que você pode dizer que já sentiu do que é o Flamengo? O que já deu para aprender?
-
É enorme. Quem está de fora, não tem essa noção. Eu não tinha essa
noção quando jogava lá fora. Sabia que tinha pressão, a torcida, mas só
estando aqui dentro para ter ideia. No Flamengo, em um jogo te colocam
lá embaixo ou lá em cima. Tem que ter muita cabeça e personalidade. A
cobrança aumenta a cada dia que passa. Podemos estar em primeiro lugar o
tempo inteiro, mas se terminarmos em segundo, ninguém fica feliz.
Você
falou de altos e baixos e viveu isso no ano passado. Foram muitos gols
importantes, mas também aquele passe errado contra o Atlético-MG, na
Copa do Brasil, que ficou marcado. Como você viveu esse momento?
-
Isso faz parte do futebol. Claro que ninguém quer perder. Foi um
momento de um contra-ataque e fiz o que veio na minha mente. Imaginei um
lance e deu errado. Ninguém imaginava também que o cara ia pegar a bola
no meio-campo e driblar todo mundo. Claro que foi um jogo
importantíssimo, mas aprendemos nos erros. É bom ser cobrado e estou
tranquilo sobre essa questão.
E a parte boa, os gols, o assédio?
-
Não sou muito de querer aparecer, essas coisas. Se fiz um gol hoje, vou
comemorar tranquilo com a família, falamos cinco minutos e esquecemos.
Não tenho tempo para comemorar, não. O importante é analisar a
temporada, fazer um resumo de como foi. Vivi bons momentos, mas esqueço
rápido e penso nos próximos.





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